Aprender a rebeldia com os livros

Aprender a rebeldia com os livros

Aprender a rebeldia com os livros

Até domingo, em Óbidos encontros com escritores, lançamentos de livros, concertos e muita atividade nas livrarias. Para falar de revoluções.

“Alguém aqui gosta de ler?” Noemi Jaffe lança a pergunta e fica olhando em volta os braços que se levantam a medo. Meia dúzia de braços no ar. Mais dois ou três hesitantes. “Alguém está lendo algum livro agora?”, quer saber Noemi. Essa pergunta é ainda mais difícil. Risos nervosos. “Estou a ler um livro mas não me lembro do autor.” Há quem refira Os Maias, de Eça de Queiroz, leitura obrigatória na disciplina de Português. Uma rapariga está a ler um livro de Bukowski. “E está gostando?” “Sim, é o meu autor preferido.”
O grupo é composto por cerca de 20 alunos do 10.º e do 11.º ano, vindos de uma escola no Laranjeiro (Almada). Metade é da turma de Turismo, a outra metade do curso de Fotografia. Vieram a Óbidos, acompanhados pelas professoras, de propósito por causa do festival literário Folio, com hora marcada para um workshop com a escritora brasileira Noemi Jaffe com o tema “Literatura, a língua revoltada”. Às três tarde, na Livraria da Adega.
A escritora, que está em Portugal a lançar o seu mais recente livro, O que os cegos estão sonhando?, também é professora e sabe bem como é difícil conquistar os jovens destas idades para a literatura. “Qual a diferença entre a nossa conversa quotidiana e a escrita literária”, pergunta-lhes. Se a conversa tem como objetivo a comunicação e, para isso, tem de seguir determinadas regras, a literatura tem como único objetivo o prazer. “O escritor escreve porque gosta de escrever, o leitor lê porque gosta de ler. Como não tem qualquer utilidade nem qualquer objetivo, o escritor pode escrever sobre o que quiser e como quiser, não tem de seguir quaisquer regras.” Noemi Jaffe fala-lhes de escritores que subvertem as regras como Guimarães Rosa, Mia Couto, José Saramago, Valter Hugo Mãe. Na verdade, conclui, “a literatura é um ato de rebeldia contra a obediência que praticamos todos os dias”. “Revoluções, revoltas e rebeldias” – esse é o tema da terceira edição do Folio. E Noemi Jaffe faz um jogo com os jovens, desafiando-os a escrever dez palavras que têm que ver com liberdade e a depois construir um texto sobre a revolta.

Para José Pinho a rebeldia pode ser tentar transformar uma vila turística numa vila literária. O homem que fundou a livraria Ler Devagar (agora na LxFactory) e que entretanto abriu nove livrarias em Óbidos e ainda assegurou a sobrevivência da Férin (no Chiado) foi também o criador do festival Folio e, apesar de este ano ter sofrido um revés no seu orçamento, não tem intenções de desistir. “Em 2015, a Unesco declarou Óbidos como Cidade Literária e isso dá-nos responsabilidade e impõe-nos objetivos”, diz. Está já a pensar na próxima edição do Folio e na segunda edição do Latitudes, o festival de literatura de viagem, e tem planos para em 2018 pôr de pé mais um festival, agora dedicado à poesia.

 

“Em 2015, a Unesco declarou Óbidos como Cidade Literária e isso dá-nos responsabilidade e impõe-nos objetivos”

“Um jornal chamou-lhe o Astérix dos livros, porque resiste como alma solitária ao avanço dos grandes grupos editoriais. É assim que se vê?”, pergunta-lha a jornalista Maria João Costa, da Rádio Renascença, no programa Obra Aberta, gravado ontem, ao vivo, na Casa da Música, em Óbidos. José Pinho está à vontade com essa imagem de resistente. “O negócio dos livros não é um grande negócio, mas mesmo não sendo rentável pode servir para outras finalidades”, explica. “Para todos nós que nos metemos nisto, os livros são um vício. E os vícios são caros. Isto para mim é um ócio. Enquanto não for um pesadelo…”
Quando sai da gravação do programa, José Pinho passeia por Óbidos, com o seu saco de pano branco ao ombro, confundindo-se com os turistas que bebem ginjinhas em copos de chocolate e compram artesanato de cortiça. É difícil circular na rua principal da vila por entre uma multidão que fala em várias línguas e sotaques. São poucos os que reparam nas placas amarelas do Folio que apontam o caminho para as várias livrarias e outros espaços de atividades. José Pinho passa pela Casa da Criação – onde o escritor Mário Zambujal fala da revolução tecnológica que, “não sendo política, tem efeitos políticos e em todos os aspetos da nossa vida” – e acaba por sentar-se na plateia da Livraria Santiago, instalada numa antiga igreja, para ouvir Hugo Maia, que traduziu As Mil e Uma Noites do árabe para português, explicar como ao procurar o manuscrito mais antigo se percebe que este livro é, afinal, muito diferente da versão adocicada e ocidentalizada que nos tem sido vendida.
“Esta obra não foi produzida pelas elites, pelo contrário, é uma crítica evidente ao açambarcamento da riqueza por essa elite e também uma forma de resistência aos déspotas que oprimem os mais fracos”, diz o tradutor. “Há um espírito de resistência popular em As Mil e Uma Noites.” Ou como disse Noemi Jaffe aos jovens alunos da Margem Sul: “Na literatura não temos de nos adequar às regras nem temer que os outros nos julguem loucos. Toda a arte é uma expressão da liberdade.” E é aí, nos livros ou pelos livros, que, tantas vezes, nascem as revoluções.

PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI

Tinta-da-china. 12 anos no Folio

Tinta-da-china. 12 anos no Folio

Tinta-da-china. 12 anos no Folio

Sempre gostei do Folio. A ideia de passar uns dias fora de Lisboa, dentro das muralhas de um castelo medieval, com tantos recantos onde apetece só sentar e ficar quieta, agrada-me. Juntar a isto boa música, ver boas exposições, ouvir e conversar com autores, rever amigos que só encontro nestas ocasiões, beber copos, dançar e principalmente visitar, devagar, livrarias onde descubro livros que não via há anos ou nem sabia que existiam, faz o resto.

Há uns meses, aceitei o desafio da Celeste Afonso, do José Pinho e da Julita Santos para pensar numa casa tinta-da-china que abrisse no Folio, em Óbidos. Como fazer? Para além de trazermos todos os nossos livros, queríamos aproveitar a casa ao máximo, preparando uma programação consistente, que não nos envergonhasse, nem ao Folio.

Quando, na semana passada, inaugurámos a Casa Tinta-da-china, tínhamos montado uma livraria e uma pequena grande exposição, com curadoria de José Pacheco Pereira, sobre censura durante o Estado Novo.

Ao longo destes primeiros dias de Folio, falámos sobre a Revolução Russa, com José Pacheco Pereira e José Neves; sobre a revolução no audiovisual com Pedro Mexia e Filipe Melo; sobre a forma como, enquanto sociedade, estamos a tratar os nossos velhos, com Dulce Maria Cardoso e Fernanda Câncio e, também, de gastronomia algarvia e de antiprincesas. Vimos ainda Ricardo Araújo Pereira a apresentar  magistralmente António Prata, o melhor cronista brasileiro da sua geração que tenho a honra de publicar em Portugal.

No próximo fim-de-semana acaba o Folio, e com ele esta nossa nova experiência, que se tornou na comemoração dos 12 anos de idade da tinta-da-china.

Vamos terminar como começámos. Na sexta-feira, 26, estarei na nossa Casa, junto de Abel Barros Baptista e José Pacheco Pereira a falar de liberdade. Desta vez, de liberdade de expressão; sábado, Rui Tavares e Bernardo Pires de Lima vão debater a Europa actual e no domingo encerraremos falando de educação com Sérgio Niza, o mentor do Movimento Escola Moderna, Jorge Ramos do Ó e Joana Mortágua, sob o mote “Quem faz a escola?”.

Antes disso, no entanto, um dos momentos altos do Folio este ano será, sem dúvida, o encontro de dois fora de série: Ricardo Araújo Pereira e Gregorio Duvivier entrarão num bar e nós seremos os clientes.

O fim-de-semana vai ser rico por aqui. Dêem um salto a Óbidos e venham beber um copo connosco. É tudo de borla.

 

Bárbara Bulhosa

Editora Tinta-da-China

Livraria Ferin – Lisboa

Livraria Ferin – Lisboa

Uma Livraria Centenária na Baixa de Lisboa

 

Livros de grande qualidade e atendimento personalizado são a marca da Ferin

A Ferin é uma livraria centenária de Lisboa conhecida pelos livros de grande qualidade e pelo atendimento personalizado que disponibiliza aos seus clientes. A origem belga da sua fundadora fez com que a Livraria Ferin se empenhasse, ao longo do tempo, em disponibilizar títulos em línguas estrangeiras, com especial ênfase na língua francesa, mas contemplando também títulos em alemão, inglês e castelhano e italiano.

Na nossa loja pode encontrar, para além de uma variada oferta de títulos de vários temas, uma secção de livros especiais que, pelos seus particulares interesse e raridade, merecem um tratamento diferenciado.

Temática: Generalista - Novidades e Fundos de Catálogo

Horário:
Domingo e Segunda:10h00-20:00
Terça, Quarta e Quinta: 10h00-22h00
Sexta e Sábado: 10h00-00h00
Tel.: 213424422
 

A livraria existe desde 1840 e é a segunda mais antiga de Lisboa

O primeiro Ferin que se fixou em Lisboa chamava-se Jean-Baptiste

O nome desta livraria tem origem no apelido de uma família belga que se fixou em Portugal por ocasião das guerras napoleónicas. O primeiro Ferin que se mudou para Lisboa chamava-se Jean Baptiste e era o 6.º avô do nosso colega Vasco Dias Pinheiro. Jean-Baptiste teve 11 filhos, 7 dos quais começaram a trabalhar em profissões ligadas aos livros (Gabinete de Leitura, Encadernação, Tipografia, etc...). Quando Jean Baptiste chegou a Portugal, por volta de 1800, ainda não havia eletricidade nas ruas, nem automóveis e muito menos autocarros. As pessoas deslocavam-se a pé ou de caleches, pequenas carruagens puxadas a cavalos.

As filhas de Jean-Baptiste Ferin abriram um Gabinete de Leitura no Chiado no local onde fica hoje a Livraria Ferin

Duas das suas filhas, Maria Teresa e Gertrudes, abriram no Chiado, em Lisboa, no local onde fica hoje esta bela livraria, um Gabinete de Leitura que funcionava mais como uma biblioteca do que como uma livraria, pois emprestava os livros a quem quisesse lê-los. As pessoas pagavam o aluguer dos livros e era com esse dinheiro que se ia aumentando o número de exemplares do Gabinete. Como eram estrangeiras, Maria Teresa e Gertrudes tinham facilidade na compra de livros estrangeiros e começaram a ser conhecidas no meio cultural lisboeta e até do País.

Maria Teresa, uma das filhas, transformou o Gabinete de Leitura na atual livraria

Como Maria Teresa tinha grande iniciativa, acabou por transformar o Gabinete de Leitura numa livraria, tornando-se, assim, na primeira livreira desta secular família.

A partir dessa altura e até meados do século XX, a livraria dispôs também de uma oficina de encadernação. O rei D. Pedro V mandava encadernar nela todos os seus livros e resolveu mesmo nomeá-la Encadernadora Oficial da Casa Real Portuguesa.

A segunda Livraria mais antiga de Lisboa

Desde 1840, pela Ferin passaram e foram seus clientes grandes personalidades da vida literária do País, como por exemplo Eça de Queiroz.

Muitas outras histórias poderiam ser contadas para atestar o importante papel que esta livraria tem desempenhado ao longo da sua existência.

Ao longo de décadas de trabalho, muitos foram os lançamentos de livros que tiveram lugar na Livraria Ferin.

Associação da Princípia Editora à Livraria Ferin

Em Julho de 2011, a Principia editora entrou para esta sociedade familiar, assumindo a gerência da Livraria Ferin e empenhando-se em conduzi-la através do século XXI mantendo a qualidade a que os clientes da Ferin estão habituados.

A história da Ferin  consegue transmitir o orgulho de toda a equipa que trabalha na livraria.

 

Marta Hugon

Marta Hugon

Marta Hugon é natural de Lisboa, onde nasceu em 1971. Formada em Línguas e Literaturas Modernas, a cantora deu aulas no Hot Club Portugal, o mais antigo bar de jazz na Europa. Entre as suas influências, é possível listar grandes nomes da música brasileira como Chico Buarque e Jobim, mas também Sérgio Godinho, Beatles e Ella Fitzgerald. A sua discografia espelha isso mesmo e inclui Tender Trap (2005), Storyteller (2008) e A Different Time(2011). Em 2016 lançou Bittersweet, que conta com a colaboração de outros músicos como Filipe Melo, Samuel Úria e João Só.

José Sousa Jamba

José Sousa Jamba

Nasceu em Kachiungo, província do Huambo, Angola, em 1966. Emigrou para a Zâmbia em 1976, devido à guerra em Angola, e foi aí que se iniciou na escrita e no jornalismo. Depois de uma bolsa de estudos em Inglaterra, o jornalista passou por países como os Estados Unidos, Brasil, Portugal, Inglaterra, colaborando em jornais como o The Spectator, The Indepentente o Terra Angolana (órgão de informação da Unita), sem nunca deixar de lado a sua produção literária patente em obras como Patriots (1990), A Lonely Devil (1994) e On the Banks of the Zambezi (1993).

Yara Kono

Yara Kono

Nasceu em São Paulo, Brasil, em 1972. Começou os seus primeiros sarrabiscos na parede da saleta. A mãe, que de início não ficou nada satisfeita, acabou por ceder aos «dotes artísticos» da filha. Da parede para o papel, do papel para o computador… assim passaram os anos. Desde 2004 faz parte da equipa do Planeta Tangerina.

Em 2008 recebeu com Isabel Minhós Martins, uma Menção Honrosa no Prémio Internacional Compostela para Álbuns Ilustrados pelo livro «Ovelhinha Dá-me Lã» (Kalandraka).

Em 2010 ganhou o Prémio Nacional de Ilustração, com «O Papão no Desvão», de Ana Saldanha (Caminho).

Em 2013, «A Ilha» (Planeta Tangerina), de João Gomes de Abreu e Yara Kono, ganhou uma Menção do Júri na categoria Opera Prima nos Bologna Ragazzi Awards. No mesmo ano, recebeu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração com o livro «Uma onda pequenina» (Planeta Tangerina).

Carlos Vaz Marques

Carlos Vaz Marques

Carlos Vaz Marques é jornalista e editor. Nasceu em Lisboa em 1964 e integra a redação da TSF, com passagens pelo JL – Jornal de Letras e o semanário O Jornal. Através da rubrica Pessoal…. E Intransmissível na TSF, já entrevistou várias personalidades de diferentes áreas como Salman Rushdie, Dalai Lama, Mário Vargas Llosa, José Saramago, entre outros. Colaborou com vários jornais e revistas como a Ler, Visão, DNa, etc. Atualmente modera o programa Governo Sombra, é diretor da revista Granta e ainda coordena a coleção Literatura de Viagens da editora Tinta-da-China.

Adolfo Maria

Adolfo Maria

Escritor angolano e ativista político ferveroso, Adolfo Maria nasceu em Luanda, em 1935. Na juventude, a sua consciência política levou-o a lutar a favor da independência de Angola, chegando a ser preso pela PIDE. Desde cedo que escreve em jornais e revistas e dirigiu também a rádio Angola Combatente. Após o 25 de Abril, foi obrigado a exilar-se em Portugal, regressando ao seu país já nos anos 1990. Mais recentemente, partilhou informações e experiências para a elaboração de livros e filmes que relatam este período da sua vida. Participa em colóquios sobre África e Angola e faz parte do painel de comentadores do programa radiofónico Debate Africano, da RDP África.